23 de outubro de 2017

As Palavras Interditas



Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

(Eugénio de Andrade)

9 de outubro de 2017

NOIVO DA SAUDADE


Porque é que em lugar de amor e mel
Me deixaste solidão sobre os meus dedos
E em vez dum beijo teu em minha pele
Me deixaste vendavais de frio e medos

Porque é que em lugar da tua boca
Nesta minha sequiosa à beira d’água
Me deixaste esta secura longa e louca
A queimar os lábios frios feitos mágoa

Porque é que vais embora e depois voltas
Numa estranha inquietude sem medida
Pra deixar no nosso amor as pontas soltas
Desse nó que nunca deste à nossa vida

Porque é que amo tanto um amor louco
Que me veste de silêncio e d’ansiedade 
Este amor que é tão grande e sabe pouco
Que me faz eterno noivo da saudade

(Fernando Campos de Castro)